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Retenção

Programa de fidelidade

O que é

Programa de fidelidade é o mecanismo que troca recompensa por repetição de compra. Ele existe em farmácia de bairro com cartão carimbado e em companhia aérea com programa de milhas de trinta anos, e a mecânica é a mesma nos dois: você identifica quem compra, acumula alguma coisa em nome dessa pessoa e devolve valor quando ela volta.

A sequência é cadastro, acúmulo, resgate, benefício e recorrência. Parece óbvia até você notar que a maioria dos programas que fracassam empilha tudo na ponta errada.

CadastroAcúmuloResgateBenefícioRecorrência

Por que a ordem é essa

Sem cadastro não existe programa, porque não dá para acumular em nome de ninguém. O acúmulo só funciona se a pessoa consegue ver o saldo dela: ponto invisível não motiva, e o cartão de papel amassado na carteira vence o aplicativo que ela nunca abre.

O resgate é a etapa que prova que o programa é real, e é ela que costuma ficar longe demais. O benefício é o que a pessoa sente ao resgatar, que não é a mesma coisa que o valor que você contabilizou. E a recorrência é consequência das quatro anteriores, nunca o ponto de partida: programa nenhum cria hábito antes de ter entregado alguma coisa.

Etapa por etapa

  1. Cadastro

    A identificação de quem compra. Quanto menos campo, mais gente entra: telefone costuma bastar para começar, e o resto se completa depois.

    Se sair do lugar: Cadastro longo no caixa trava a fila e faz o funcionário deixar de oferecer. O programa morre na operação, não no marketing.

  2. Acúmulo

    A regra de quanto a pessoa ganha por compra, e principalmente o quanto disso ela consegue enxergar sem pedir ajuda a alguém.

    Se sair do lugar: Saldo que só aparece se a pessoa perguntar não existe do ponto de vista dela.

  3. Resgate

    O primeiro resgate é o momento decisivo do programa inteiro. É ele que transforma promessa em experiência.

    Se sair do lugar: Primeiro resgate distante demais mata o programa antes da prova: a pessoa desiste enquanto o benefício ainda é abstrato.

  4. Benefício

    O que ela sentiu ao resgatar. Vale mais o que tem valor percebido alto e custo marginal baixo do que desconto puro, que só corrói margem.

    Se sair do lugar: Benefício genérico ensina a pessoa a esperar promoção, e aí você fidelizou o desconto, não a marca.

  5. Recorrência

    A compra que voltou por causa do programa. É a única etapa que paga a conta, e a última a aparecer.

    Se sair do lugar: Cobrar recorrência antes do primeiro resgate é cobrar hábito de quem ainda não recebeu nada.

O erro que aparece no terceiro mês

Colocar o primeiro resgate longe demais para proteger a margem. A conta parece prudente no papel: quanto mais compras até a recompensa, menor o custo do programa. Na prática, a pessoa abandona antes de provar que a coisa funciona, e o programa vira um custo fixo sem retorno.

Há um jeito conhecido de contornar, e vem de um estudo clássico de comportamento: cartões de lavagem de carro que exigiam oito selos, mas já vinham com dois carimbados, foram completados quase o dobro de vezes em relação aos que exigiam seis do zero. O esforço era idêntico. O que mudou foi a pessoa não começar do zero. Vale para pontos, para selo e para barra de progresso.

Como medir

Quatro números contam a história inteira: adesão (quantos dos que compram entram no programa), taxa de primeiro resgate (quantos chegam a receber alguma coisa, que é o melhor indicador de que o desenho está certo), frequência de compra de quem participa contra quem não participa, e o passivo de pontos, que é o valor acumulado e ainda não resgatado. Esse último é uma dívida com o cliente: programa que cresce sem olhar para ele descobre tarde que prometeu mais do que consegue entregar.

Perguntas rápidas

Programa de fidelidade vale para negócio pequeno?
Vale, e costuma funcionar melhor que em rede grande, porque o dono conhece o cliente pelo nome e o benefício pode ser específico. O cartão carimbado continua sendo um dos programas de melhor retorno que existem, justamente por ter as cinco etapas visíveis na mão da pessoa.
Ponto ou cashback?
Ponto tem custo marginal menor e permite benefício com valor percebido acima do custo real. Cashback é mais fácil de entender e mais difícil de defender na margem, porque vira desconto com outro nome. Se a operação é simples, cashback erra menos.
Qual a diferença entre fidelidade e recorrência?
Recorrência é a pessoa comprando de novo, por qualquer motivo, inclusive falta de alternativa. Fidelidade é ela comprando de novo quando existe alternativa. Um programa só prova fidelidade quando o concorrente está mais barato e a pessoa fica.
Programa de indicação é a mesma coisa?
Não. O de fidelidade recompensa quem volta, o de indicação recompensa quem traz alguém. Costumam conviver bem, mas medir os dois juntos esconde qual dos dois está pagando a conta.